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Método · Benevente

O que é o Benevente, e como ele foi feito.

É um sistema que decide uma carteira de ações uma vez por ano, seguindo uma regra escrita antes, e guarda o motivo de cada escolha junto com os dados que existiam naquele dia. Serve para responder, três anos depois, a uma pergunta que hoje quase ninguém consegue responder: por que essa ação foi escolhida?

O problema

Quem recomenda investimento assina a recomendação. Anos depois, alguém pergunta por que aquela ação entrou na carteira, e a resposta honesta exige duas coisas que costumam ter sumido: os dados como eles eram naquela data, e a regra que valia naquele momento.

Na prática, o que sobra é memória e planilha reescrita. O Benevente grava as duas coisas no instante da decisão, e quem assina fica nomeado.

Nenhuma decisão pode usar informação que não existia na data em que foi tomada. Todo o resto do método é consequência disso.

Como a carteira é decidida, em cinco passos

Uma vez por ano, no primeiro pregão de janeiro. A carteira é comprada e mantida até o janeiro seguinte, sem giro no meio do caminho.

  1. A política é escrita e travada primeiro. Quanto pode ir para ações, quanto pode ir para uma única empresa, quantas posições no mínimo, e quanto custa girar. Isso é definido antes de qualquer empresa ser olhada, e recebe um código de verificação que prova depois que não foi alterado.
  2. As empresas passam por uma peneira. Liquidez, geração de caixa, retorno sobre o capital, dívida e cobertura de juros. Banco e seguradora passam por uma peneira diferente, porque o balanço deles não é comparável ao de uma indústria. Cada reprovação fica registrada com o motivo.
  3. Quem passou é ordenado. Por uma combinação de qualidade, preço e comportamento recente, tudo calculado só com informação disponível naquela data.
  4. Os pesos são calculados. Uma otimização distribui o dinheiro entre as escolhidas respeitando os tetos da política. O que sobra fica em renda fixa.
  5. Uma pessoa decide. O sistema entrega uma proposta com a política, a peneira, os pesos, as ordens e o custo estimado. Ele não transmite ordem nenhuma. Aceitar ou recusar é de quem assina.

Existe uma segunda camada, opcional, que não muda quais empresas estão na carteira: ela reduz temporariamente a exposição às ações brasileiras quando a queda e a oscilação do mercado passam de certos limites. O objetivo declarado dela é diminuir o tamanho do tombo, não aumentar o ganho, e a página do projeto mostra exatamente quanto de retorno isso custa.

De onde vêm os dados, e por que isso é metade do trabalho

Os preços vêm do arquivo da própria bolsa, não de um provedor. A razão é medível. Um provedor de preços serve as empresas que ainda existem, então montar o histórico a partir dele apaga toda companhia que fechou, foi comprada ou saiu da bolsa. Neste caso seriam 166 de 514 empresas. Dessas, 77 somem antes de 2020, e 58 já tinham perdido mais de 60% do próprio pico quando pararam de negociar.

Não é uma amostra qualquer do que falta: são exatamente os piores resultados. Um histórico montado assim mostra um mercado que rendeu mais do que rendeu de verdade, e ninguém percebe, porque não há erro nenhum na tela. O painel reconstruído cobre 4.066 pregões, de janeiro de 2010 a dezembro de 2025.

Os números das empresas vêm dos formulários entregues ao regulador, com a data em que foram recebidos. Essa data é a porta: um balanço só entra na decisão de janeiro se já tinha sido entregue antes daquele dia. Parece óbvio e quase nunca é feito, porque o jeito fácil é usar o balanço do ano fechado, que só ficou público meses depois da decisão que ele estaria influenciando.

A regra é congelada antes, não escolhida depois

Esta é a parte que a maioria dos backtests erra, e que o Benevente errou primeiro. A versão original testou várias configurações possíveis, publicou a melhor, e a posição dela saltou de 57º lugar no critério de treino para 1º no teste. Isso só acontece se o teste foi espiado.

A correção foi avaliar cada ano usando apenas os anos já encerrados antes dele. Isso resolveu espiar o resultado. Não resolveu o problema seguinte, que é mais sutil: procurar demais.

Testar 36 configurações e escolher a melhor já dá alguma vantagem por sorte. Testar 256 dá muito mais. Rodada a mesma busca sobre a grade maior, com dados e código idênticos, o resultado piorou: caiu de 15,31% para 12,68% ao ano, e o indicador que desconta a sorte da busca, o Sharpe deflacionado, caiu de 0,957 para 0,777, ficando abaixo do que se exige para levar o número a sério. O motivo é aritmético: o que se esperaria obter só por sorte subiu de 0,375 para 0,746.

Em linguagem simples: com dez anos de observação não dá para escolher entre 256 candidatos. A diferença entre o primeiro e o quinquagésimo é menor que o acaso. Por isso a configuração de cada perfil passou a ser declarada e travada antes do período, com código de verificação público, em vez de escolhida por procura. A busca continua publicada como o experimento que mostrou o próprio limite.

Oito coisas testadas que não funcionaram

Estão publicadas com o mesmo detalhe dos resultados positivos, porque um repositório que mostra só o que deu certo não se distingue de material de venda.

Hipóteses testadas contra a regra publicada
HipóteseResultado
Buscar mais configurações acha regra melhorPiorou 2,63 pontos ao ano
Pesar posições pelo inverso da oscilaçãoA regra publicada venceu em 8 de 8
Dosar risco pela oscilação vista em janeiroCortou sempre depois do susto, nunca antes
Prever se o ano será bom ou ruimSem sinal, p de 0,31
Mudar a proporção ações e caixa com mais frequênciaNenhuma das sete regras venceu o peso fixo
Refazer a carteira trimestral ou mensalmenteSem evidência de que ajude
Manter o que continua bom em vez de refazerGanho não significativo, p de 0,138
Usar um modelo de linguagem para escolher açõesTrês resultados nulos

Duas dessas aparecem como "sem evidência de benefício" e não como "comprovadamente pior", e a diferença não é cosmética: onze anos de observação não permitem a afirmação mais forte, mesmo quando todas as estimativas apontam para o mesmo lado.

A última merece nota, porque contraria a expectativa do momento. O modelo de linguagem foi testado em quatro versões, incluindo uma em que ele via os nomes das empresas e outra em que via só números sem identificação. Nenhuma das comparações deu diferença detectável: o modelo reproduziu a ordenação que a regra determinística já fazia. Ele ficou no sistema para organizar e explicar decisões, não para tomá-las.

Em que estágio está, e o que ele não é

É protótipo de pesquisa em validação fechada. Os pilotos são internos e silenciosos: o sistema acompanha carteiras em paralelo ao processo que já existe, gera o documento de cada decisão, e mede tempo e divergência de custo, sem transmitir ordem e sem alterar decisão nenhuma. Não há canal comercial aberto nem captação.

O período avaliado, de 2015 a 2025, é o mesmo em que a regra foi desenvolvida. Onze anos avaliados não são onze anos de validação: a avaliação de verdade começa com a decisão de janeiro de 2027, sob uma versão registrada que não pode ser mexida depois de o resultado aparecer.

Os números de rentabilidade ficam na página do projeto, ao lado do estágio e das limitações, que é onde eles significam o que dizem. Aqui eles não aparecem de propósito: retorno passado exibido fora do contexto que o qualifica é a coisa mais fácil de ler errado.

Onde conferir

Os números desta página saem do método publicado do projeto e dos artefatos do repositório. Se algum não bater, é bug, e eu quero saber.

Esta página descreve método, não desempenho, e não constitui recomendação de investimento, oferta nem promessa de rentabilidade. Os resultados retrospectivos citados descrevem a amostra em que a regra foi desenvolvida, não validação prospectiva.